sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Convidado especialíssimo no Dia Nacional do Samba!

Hoje, no DIA NACIONAL DO SAMBA, fiquei quebrando minha cabeça sobre o que postar no SAMBA DE SILAS.
Muitas coisas têm sido ditas sobre o samba, sobre cultura brasileira, sobre o samba na cultura brasileira... muita gente de "responsa" lê este blog. Então, pensei que qualquer coisa que eu escrevesse, qualquer opinião minha sobre o assunto seria apenas uma mera opinião de uma historiadora que no fundo, no fundo é uma profunda admiradora do samba, apenas isso!!! Por isso, resolvi deixar o espaço para quem realmente entende do assunto, aliás, esse é o propósito do blog, dar espaço para o pessoal do samba não só falar sobre Silas de Oliveira, mas também sobre o samba e seu universo, como também, preservar acima de tudo a memória desse nosso patrimônio histórico brasileiro. O samba é a nossa mais legítima resistência e quem entende um pouco de história  sabe do que estou falando.
Anos e anos de dominação européia, séculos de submissão...
Assim, passo honrosamente a palavra para um dos nossos maiores sambistas da atualidade, aquele que cantou sabiamente: "SAMBA, AGONIZA MAS NÃO MORRE..."
Com vocês, Nelson Sargento!!!


Silas de Oliveira

Silas de Oliveira compositor emérito, humilde e genial na sua inspiração que tem qualquer coisa de divino.
As palavras que coloca nos sambas que compõe se transformam em poesia da melhor qualidade.
“A dolência que possuis na estrutura é uma sedução” ou ainda “Oh, minha romântica senhora tentação”.
O Silas deu uma estrutura poética ao samba, que perdura até os dias atuais.
Silas popularizou o Império Serrano, escola do seu coração, com sambas que compôs.
Que Deus guarde no seu reino, este fabuloso autor.

Nelson Sargento




quinta-feira, 17 de novembro de 2011

VOLTAMOS!!!!!

Estamos de volta!!! 
Por algumas semanas ficamos afastados do blog por conta da "licença paternidade e maternidade"(rs...) Nara, nossa filha, nasceu, é saudável e muito linda! E pra comemorar, escolhemos um texto muito bonito de André Lara, músico e neto de Ivone Lara!
E vamos "simbora" porque temos muito o que falar de Silas de Oliveira ainda!
Abraços,
Junior de Oliveira e Carol Gallego


Quando a voz do poeta calou


“Silas, por nós tu não terias ido agora”. Silas de oliveira Assumpção, sambista, ex-combatente na Segunda Guerra Mundial, jongueiro, pai de família, exemplo pra todos os poetas, deixou seu legado imortal que viaja no antigo e no contemporâneo, na melodia complexa e no verso fenomenal, na malandragem e na seriedade, no culto e no popular. É, a meu ver, o “poeta dos poetas”. Qual compositor nunca tomou um gole de Silas de Oliveira?

Tempos atrás, com 10 anos de idade, lembro o lançamento do livro da grande escritora e defensora do samba, Marília Barbosa, que, na ocasião, presenteou minha avó e minha mãe com a obra: “Silas de Oliveira – Do jongo ao samba enredo’. Oito anos depois, comecei a ler e me interessar pelo pressuposto teórico do livro que me levou a devorar toda dissertação em uma semana.

Mais curioso ainda, fui à fonte mais próxima de casa para saber um pouco mais sobre a vida do tal Silas de Oliveira, que eu, ainda um ignorante no mundo do samba procurava conhecer. Minha avó, sempre acolhedora, me contou um fato que até hoje explano para meu grande amigo Junior de Oliveira: “Cinco bailes da história do Rio”, parceria de Dona Yvonne Lara com Silas de Oliveira e Bacalhau, foi um marco na carreira da minha avó, por lhe impor muito respeito no espaço ainda seleto do samba.

Não satisfeito, pedi que me contasse mais e ela, emocionada, disse que Silas morreu cantando no show que se intitulava “samba da intimidade”, onde não só ela, mas muitos sambistas estavam presentes. Logo depois de cantar “heróis da liberdade”, Silas começou a interpretar os “Cinco bailes da história do Rio” e, no meio de uma de suas melhores apresentações, veio a falecer. Sempre me arrepio toda vez que conto essa história! Mas voltando... No mesmo dia, minha avó e Délcio Carvalho, que tinham acabado de se conhecer, começaram lá mesmo sua primeira parceria, finalizada em Inhaúma, já pelas 7 h da manhã. O resultado desse encontro foi o samba que eu só conheci uns anos atrás: “Derradeira Melodia”, em homenagem ao grande mestre:

LARAI Á LARAI Á LARAIÁ LAIÁ

QUANDO A VOZ DO POETA CALOU
A NATUREZA CHOROU FORTE
E SEU PRANTO BATENDO NO CHÃO PARECIA
ACOMPANHAR A DERRADEIRA MELODIA
QUE AINDA PAIRAVA PELO AR
ERA SAMBA FIRMAR
COM PUREZA E MAGIA

AO ERGUER A MINHA TAÇA
COM EUFORIA
NINGUÉM HÁ DE ESQUEÇER
O SEU PRANTO DE RAÇA
QUE O POETA ENTOAVA
COM TODA HARMONIA
E O SAMBISTA ASSIM CANTOU
CAUSANDO TANTA EMOÇÃO
MAS SUA ARTE A DE FICAR DE PÉ
DENTRO DO NOSSO CORAÇÃO

LARAI Á LARAI Á LARAIÁ LAIÁ




quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Wanderson Martins no SAMBA DE SILAS!

Hoje temos um convidado que muito tem contribuído para a música brasileira, WANDERSON MARTINS, instrumentista e compositor, toca com os maiores nomes dos palcos de hoje em dia. Aqui no SAMBA DE SILAS, ele dá continuidade ao pensamento de seu filho João Martins e nos presenteou com uma belíssima poesia!!!
Senhoras e senhores, com vocês... Wanderson Martins!!!!!







Parafraseando Joao Martins,

sentimos no legado e na figura
de Silas, uma simplicidade
onde a obra é
o centro da atençao ,
o verdadeiro foco,
fato que hoje certamente
seria colocado em segundo ,terceiro, ultimo plano,
visto que a ganancia e a vaidade,
se sobrepoem ao talento,
à emoçao à arte.
Monarco me contou da sua admiraçao por Silas, em
quem depositava
total confiança,pedindo opinioes sobre suas composiçoes:
A pergunta que deixo no ar
seria:
Será que o grande Silas teria chance
de mostrar ou ter sua obra
reconhecida nessa selva
onde o glamour de ter
o nome incluído
numa das parcerias
quilométricas
onde o que menos importa,
infelizmente,
sao as rimas, as
melodias,
temas tao bem
declinados por tao nobre
compositor?
Viva Silas de Oliveira!

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Dia de convidado no SAMBA DE SILAS!


Olá meus parceiros! Hoje é dia de mais um convidado especialíssimo aqui no SAMBA DE SILAS. O pessoal do samba o conhece muito bem, JOÃO MARTINS.
Cantor e compositor de "responsa", filho do músico Wanderson Martins, deixa sua graça nas belas poesias em forma de notas musicais e tem tudo registrado no seu blog: www.sambajoaomartins.blogspot.com 
Vale a pena conferir o nosso texto e o blog!!!
Valeu João!!!



  • Ao tempo e ao Silas


    E a gente fica pensando:
    E se Silas estivesse vivo? Como seria?
    Egoístas em querer tocar
    Em ver com os olhos
    Em ouvir da boca o verso
    Apego
    Egoístas em querer ignorar o tempo.
    Afinal... é o tempo.
    Contra ele nem tentar deveríamos.

    Quando o sambista nasce?
    Quando foi o astro assim consagrado?
    Quantas notas? Quantas bossas?
    Quantas noites?
    Consagrado aos que de perto sentiram a movimentação celestial de suas atitudes ou aos que o rumo dos anos fez o favor de mais tarde apresentar?
    presentear?
    Pra consagrar.
    O mito existe. Onde foi seu grande estalo?
    À partir de quando o rei nomeou nobre cavaleiro quem antes era só mais um?
    Canonizado Silas

    Que esperem a morte carnal; a desencarnatória os que vêm.
    Talvez defuntos a gloria lhes caiba melhor.
    À carne seca.
    Conformem-se;
    Se é jogo; morreu, ganhou.
    Aos vermes enfim, e toda podridão corporal.
    Humana, orgânica
    É assim que receberão flores, lágrimas e louros.
    E nem ai estarão,
    Nem se importarão
    lá deitados, já sem vida.
    Saúda-se o espírito,
    Esperando,
    os outros e próximos “nós”,
    cruéis e novamente egoístas
    vossas próximas encarnações.
    Conformando a quem necessite que, como toda boa história, o fim tem sempre um depois.
    Saideira...

    Celestioso, confunde.
    Transcende à carne
    e vive.

    É o canto que eterniza.
    O que resta
    É tradição oral entranhando na cultura
    Aglomerando a identidade das nossas bandeiras
    Ficamos nós, como fantoches dessa força
    Comum aos novos e antigos
    Embalo em transe
    São outras famílias
    São outras pessoas
    São outras histórias e escolas entrelaçadas pelo poder da voz e seus missionários.
    Uns pra criar.
    Outros pra proferir.
    Outros para resgatar
    Outros para conferir.
    Todo canto será louvado, pois será ouvido
    Por outras almas
    Por outros corpos
    Por outros tempos
    E por tudo que vivemos,
    que cantamos e chamamos : samba
    Assim foi
    e assim será
    Pra Sempre Silas

terça-feira, 4 de outubro de 2011

95 anos de Silas de Oliveira

Em 04 de outubro de 1916 nasceu Silas Oliveira de Assumpção, em meio a Primeira Guerra que o mundo vivenciou. Havia crise no mundo...
No Brasil, o governo de Venceslau Brás, tentava organizar nossa fraca urbanização e industrialização que ainda davam os seus primeiros passos.
Na música, a modinha, a valsa, a cançoneta, a polca e o maxixe estreavam nos ouvidos cariocas, Chiquinha Gonzaga fez parte disso.
E em Vaz Lobo, nasce um poeta...em 1916.

Silas...
Por nós tu não terias ido agora.
É doloroso todo o samba chora.
Tão cedo por que nos deixou ?
Tú foste, em passo firme, em linha reta,
Um dos mais perfeitos poetas,
Orgulho de um compositor.
E agora,
Tens a sua moradia lá no céu.
Estais fazendo parceria com Noel.
Foste atender ao criador.
Se foi...
E ao mundo inteiro disse adeus.
É triste mas foi mais um bamba,
Que o mundo do samba perdeu ! '

                                         (Tião Pelado)

É, não te conheci mas você é a minha maior inspiração no samba. Tenho muito orgulho de mesmo depois de tantos anos, ver seus sambas fazerem um grande sucesso e seu nome ser respeitado por todo o mundo.
95 anos do meu saudoso avô, Silas de Oliveira.
(Aimée Reis, 18 anos, neta de Silas de Oliveira)





Salve Silas!

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Convidada especial!!!

Olá companheiros de blog, de samba e de vida! Hoje aqui no SAMBA DE SILAS temos a participação de mais uma convidada! 
Lazir é mais que especial, ela vem lá da Serrinha, vem do jongo e da cultura afrobrasileira mesmo! Lazir é coordenadora da associação Grupo Cultural Jongo da Serrinha (GCJS) que foi criada em 2000 com o objetivo de dar continuidade aos trabalhos de preservação do patrimônio histórico do jongo e assistência social desenvolvidos há mais de 40 anos por Vovó Maria Joana Rezadeira e Mestre Darcy do Jongo.
Fiquem vocês com o texto dessa jongueira e amante da arte de Silas! Lindo texto por sinal! 

É! Ele nasceu em Madureira, capital do samba! O gênio de todos os tempos.
O deus da inspiração.
O grande poeta.
Como jongueira, afirmo: o rufar dos tambores do jongo que permearam seu caminhar (ritmo presente e constante em sua trajetória), influenciou e muito no tempero, na alquimia e no astral da sua inspiração.
Uma vida melodiosa.
Visualizo as palavras e melodias flutuando ao seu redor.
Salve Silas! Sábio ao organizá-las. Salve toda sua sabedoria!
Essa é a nossa herança, um presente, um legado pra todo o universo.
Suas composições são verdadeiras jóias. Dentre tantas relíquias: “Aquarela brasileira”, “Meu drama”, “Amor aventureiro, ”Heróis da liberdade”, “Apoteose ao samba”.
Apoteose é Silas!
O que devemos fazer sim, é cantar no nosso dia a dia, as suas canções , sempre, pois pra quem acredita... ele vive e está entre os eternos sambas!
(Lazir Sinval, cantora e coordenadora do Jongo da Serrinha)

domingo, 11 de setembro de 2011

Silas, o herói da liberdade!

    Desde a época de minhas aventuras nos corredores da faculdade de Ciências Sociais, tive um fascínio quase que exclusivo pela História Oral, em vários trabalhos inclusive o de conclusão de curso, me baseei nesta técnica, que para mim leva o pesquisador a um mundo não só de verdades mas de muitas fantasias 'reais' bonitas de serem ouvidas (vale a dica aqui para o livro lindo da Ecléa Bosi: Memória e Sociedade - lembrança de velhos)!
    Como sou um pouco fuçada nesse negócio de história oral, é praticamente impossível eu estar em algum lugar com pessoas interessantes e não começar a "desenterrar o passado" e foi assim que num dia de calor, digno de Rio de Janeiro, descobri uma história interessantíssima sobre Silas de Oliveira.
    A mim, me incomodava um pouco o fato de ele ter escrito o samba 'Heróis da Liberdade', junto com Mano Décio e Manoel Ferreira, em pleno 1969 (época que em a ditadura militar brasileira mostrava suas garras mais pontudas) e absolutamente nada, nenhuma punição lhes tivesse acontecido... Pois bem, houve! 
    Silas Junior, me contou que depois que o samba ficou pronto e devidamente reconhecido na quadra do Império Serrano, Silas e seus parceiros foram chamados por um delegado de polícia para prestar esclarecimentos sobre o samba. Na verdade, não foi um pedido da polícia, como de praxe, foi uma imposição  inclusive com ameaça dos policiais de prenderem o trio!
    Foi pedido a Silas de Oliveira então para explicar os subversivos versos: 


"Essa brisa que a juventude afaga
Essa chama 
Que o ódio não apaga pelo universo 
É a revolução em sua legítima razão(..)"

    No desespero e sabedoria, Silas de Oliveira explicou aos militares que, a palavra REVOLUÇÃO tinha sido colocada no papel por engano, que tinha sido erro de digitação e na verdade, o correto era a palavra EVOLUÇÃO!!!!
    Não sei se eles caíram na conversa. O fato é que Silas já era um sambista muito conhecido e realmente tinha a simpatia de muita gente... se a fama ajudou? Também não sei! O que sei, é que 'contra fatos não há argumentos' e neste ano, 1969, o Império Serrano desfilou lindamente com um dos sambas mais bonitos da nossa história, não foi campeão do carnaval, mas com certeza imortalizou o samba dentro da nossa cultura!
    Com vocês, alguns flashes do desfile do Império Serrano de 1969! 
                                                                                                                                                                                          (Texto: Carol Gallego)




Passava noite, vinha dia
O sangue do negro corria
Dia a dia
De lamento em lamento
De agonia em agonia
Ele pedia o fim da tirania
Lá em Vila Rica
Junto ao largo da Bica
Local da opressão
A fiel maçonaria, com sabedoria
Deu sua decisão
Com flores e alegria
Veio a abolição
A independência Laureando
O seu brasão
Ao longe soldados e tambores
Alunos e professores
Acompanhados de clarim
Cantavam assim
Já raiou a liberdade
A liberdade já raiou
Essa brisa que a juventude afaga
Essa chama
Que o ódio não apaga pelo universo
É a evolução em sua legítima razão
Samba, ó samba
Tem a sua primazia
Em gozar de felicidade
Samba, meu samba
Presta esta homenagem
Aos heróis da liberdade
Ô, ô, ô, ô
Liberdade senhor!

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O SAMBA SEM REGULAMENTO

    A primeira competição entre sambistas que se tem notícia aconteceu no bairro do Engenho de Dentro, na casa de um sambista e macumbeiro conhecido como Zé Espinguela, que frequentava muito a Mangueira. O compositor Cartola, não se lembra em que ano aconteceu a competição, mas se recorda, inclusive, que Zé Espinguela levou depois as escolas para a Praça Onze: 
- Ele tinha uma amante aqui em Mangueira. Era casado mas tinha uma amante por aqui. Não saía daqui. Esse negócio de concurso de samba quem inventou foi ele. Era macumbeiro e fazia todos os anos na casa dele, no Engenho de Dentro, uma festa no dia de São Sebastião. Ele misturava roda de samba com macumba, tinha comida, tinha bebida, aquela coisa toda. E inventou um negócio que era o seguinte: fazer um samba. Ele dizia assim: "Eu quero um samba com a palavra tal". Eu fiz, o Paulo da Portela fez, o Heitor dos Prazeres, o falecido Agenor. Daí, ele inventou um concurso na Praça Onze.
    Juvenal Lopes, antigo mestre-sala da Escola de Samba Deixa Falar, integrante da União do Estácio e, nos anos 60, presidente da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, em depoimento gravado que prestou ao seu filho Pedro Paulo, falou de Zé Espinguela.
- Grande sambista e sapateador, um mulato alto, era casado no Engenho de Dentro com uma senhora que tinha uma Casa de Santo. E tinha uma mulher por nome de Joaninha, irmã da Mariazinha, da Alzira Dente de Ouro e Ambrozina, umas mulatas danadas no samba. Essa Mariazinha tocava tudo que era instrumento de corda. No partido alto, ela pegava no cavaquinho e violão e tocava:
"Oi não me mate, nega
Não me mate, não
Oi não me mate, Teresa,
Do meu coração coração
Mas não me mate."
- Eu gostava quando a Joaninha cantava com a Mariazinha e o Zé Espinguela só no sapateado.
    Juvenal Lopes lembra-se que cantar, tocar e dançar samba em casas de macumba era um recurso que os sambistas aplicavam para enganar a polícia que acabava sempre com as rodas de samba e tem várias histórias sobre esse tipo de perseguição: 
- Por uma ocasião, passando pela Mangueira, apanhei Teresa, uma crioula que tocava violão, peguei o Aristides que também tocava violão e muitos outros instrumentos de corda e que depois andou muito pelo Catete (...) Fomos para o Morro do Urubu, onde havia uma macumba. Havia uma sessão e nós ficamos do lado de fora cantando samba e esperando acabar a macumba. Me lembro até que estava um frio miserável, era junho, época de São João, inclusive era festa de Xangô. Embora não participássemos da macumba, fomos servidos com uma bandeja com pão-de-ló, canjica e pão com manteiga. Quando terminou a macumba, a Teresa chamou a gente com um samba:
Acorda, acorda
Quem está dormindo acorda
Na fé de Deus
Acorda, acorda
A bença, a bença
Boa noite, boa noite
- Era um tal de apanhar instrumentos, pandeiros, pratos com faca, que o samba estava começando (...) Quando o samba estava na melhor, bateram na porta dizendo que não adiantava fugir pois a casa estava cercada. Ninguém corre. Aí, por causa do samba, o delegado Abelardo da Luz, colocou a gente da casa pra fora (...) Descemos e andamos a pé, do Morro do Urubu até o 23 Distrito, que naquele tempo era em Madureira, de baixo do pau e de bengalada. E o delegado obrigando a gente a cantar o samba sem parar. tinha que cantar no ritmo. Ou cantava no ritmo ou levava bengalada.
    Juvenal Lopes volta para Zé Espinguela:
- Ele organizou um concurso na sua casa do Engelho de Dentro, na Rua Borja Reis. Compareceram representantes do Estácio, da Mangueira, de Oswaldo Cruz e da Favela. Me lembro que o pessoal do Estácio foi desclassificado porque apareceu de gravata e de flauta. Seu samba era assim:
De que tanto choras
Se não estás sentida
As lágrimas que vertes
São fingidas
Eu tenho certeza
Que não vou te perdoar
Chora, meu bem, chora

    O samba da Mangueira era do falecido Arturzinho Faria:
Eu quero é nota
Carinho e sossego
Para viver descansado
Cheio de alegria, meu bem
com uma cabrocha ao meu lado

    O samba de Oswaldo Cruz era do Paulo da Portela:
Avante mocidade
É hora
Vamos fazer nosso progresso
Vamos deixar correr
A fama suburbana
Por todo esse universo
Universo
O samba harmonioso é lindo
E para ter maior valor
Vamos por em linha de frente
E para ter maior valor
Vamos por em linha de frente
Para presidente
O Mano Claudionor

    Em Oswaldo Cruz, desde os anos 20, havia também uma casa, na Rua Adelaide Badajós, que era uma espécie de clube de samba. Era a casa da tia Ester - Ester Maria da Cruz - uma baiana que fundou, inclusive, um grupo carnavalesco, o Bloco Quem Fala de Nós Come Mosca, que depois se juntou com o bloco de Paulo da Portela, Baianinhas de Oswaldo Cruz, saindo daí o Vai Como Pode, e mais tarde, a Portela.
    O compositor Candeia, nascido em 1935, não conheceu os primeiros tempos da casa da Tia Ester, mas se   lembra perfeitamente das festas que ela continuava promovendo quando ele já era menino. Afirma Candeia:
- Para mim, ela é uma espécie de Tia Ciata. A casa dela era um casarão enorme, em Oswaldo Cruz, onde abrigava todo mundo e dava os seus pagodes. Era baile de regional e roda de samba. O Jair do Cavaquinho foi criado lá. Chegava alguém pedindo pão ou uma guarida, Dona Ester abrigava todo mundo até que se arrumasse na vida. Naquela época, Oswaldo Cruz não tinha cinema, teatro, nada disso. Por isso, a casa da Dona Ester era uma espécie de centro de Oswaldo Cruz, onde as pessoas iam se divertir. Me lembro de ter visto na casa dela o Zé com Fome, o Luperce Miranda, o Claudionor Cruz, uma porção de gente assim.
    Zé Espinguela e Tia Ester não deixaram nenhum samba de sucesso. Mas se deve a eles, sem dúvida, muita coisa que se inseriu na história das escolas de samba.
(CABRAL, Sérgio. Coleção História das Escolas de Samba. Vol 2. Som Livre. Rio de Janeiro, 1976. Adaptado por Carol Gallego)

Zé Espinguela: sambista e macumbeiro. Aquele que iniciou os trabalhos lá no Engenho de Dentro.










quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Passeando por Vaz Lobo

Nada melhor do que beber direto da fonte.
Eu, como historiadora, nessa jornada de valorização das obras de Silas, me senti na obrigação de ver de perto, sentir o clima do lugar onde Silas nasceu, viveu grande parte da sua vida e deixou seu legado. Estou falando de Vaz Lobo, bairro que fica pertinho de Madureira, lugares que praticamente se misturam e trasbordam muito da  cultura carioca, pelo seus ritmos, casas, morros e sua presença nos principais e melhores carnavais.
O primeiro lugar que Junior de Oliveira e eu visitamos foi a sede da G.R.E.S UNIÃO DE VAZ LOBO, escola de samba que contou muitas vezes com a presença e o apoio de Silas de Oliveira, lá Dona Elane, sua esposa, colocava sua voz como pastora e sua filha Marilena chegou até a desfilar.
A escola foi fundada em 1930, é uma das mais antigas escolas de samba do Rio de Janeiro, inclusive participando de alguns desfiles na Praça Onze, porém, nunca foi devidamente reconhecida por não fazer parte dos carnavais dos principais grupos. 
Hoje a escola vive uma revitalização, sua sede encontra-se em obras e para quem vai a Madureira, ela quase passa despercebido. 
Mais a frente, em Madureira, fomos até a rua Maroim, que a partir de 1972, por um Projeto de Lei passou a ser chamada de Rua Compositor Silas de Oliveira, homenagem feita pela Prefeitura e Bairro de Madureira ao nosso glorioso Silas. A placa da rua encontra-se em péssimo estado, assim como a rua em si. Ao final dela fica o Morro da Serrinha, palco de várias manifestações culturais de grande importância a começar pelo Jongo. 
Creio que escrever sobre Vaz Lobo, Madureira e Serrinha foi tão importante quanto fotografar este lugar que parece parado no tempo, como se o próprio tempo de vontade própria, quisesse ser estático por lá para que suas memórias fiquem para sempre pregadas às ruas, vielas e morros daquele povo. 
(Carol Gallego, historiadora e amante da cultura brasileira)

Símbolo da G.R.E.S União de Vaz Lobo

Frente da sede (em obras) do G.R.E.S União de Vaz Lobo

União de Vaz Lobo

Parte da sede do G.R.E.S. União de Vaz Lobo

Sala da bateria União de Vaz Lobo

Instrumentos União de Vaz Lobo

Instrumento doado à escola pelo Império Serrano

Eu, Narinha e Helen (Mestre de Bateria)

Eu, Narinha, Gamo (Diretor) e Rodnei (Timbau)

Junior, Helen, Rodnei e Gamo - União de Vaz Lobo

Placa da rua Compositor Silas de Oliveira

Rua Compositor Silas de Oliveira

Rua Compositor Silas de Oliveira e ao fundo Morro da Serrinha
Esquina da rua Compositor Silas de Oliveira com Avenida Edgar Romero


Em Vaz Lobo, rua Antônio dos Santos, o Mestre Fuleiro, um dos fundadores do Império Serrano

Rua Professor Burlamaqui, onde Junior passou a infância

Casa onde Junior morou em Vaz Lobo

Como eu disse, o tempo ali parece que parou e muito se pode aprender com isso...
(Fotos: Carol Gallego e Junior Oliveira)

sábado, 23 de julho de 2011

Império Serrano e seus tesouros...

  "Quando se fala em Império Serrano como uma espécie de quilombo do samba não se trata de mera abstração. A escola nasceu, em 1947, com os atuais nome, cores e jeito de ser, mas é muito mais antiga, contemporânea de Estácio, Portela, Mangueira, com data de nascimento nos anos 1920. Tinha o nome Prazer da Serrinha, mas era uma escola com dono, Antonio Costa, que mandava e desmandava, fazia o que queria com a agremiação, desprezando a já consciente comunidade da Serrinha. Dizem os historiadores da escola que, em 1946, seu Antonio chegou ao cúmulo de proibir que se cantasse o samba eleito pela comunidade, 'Conferência de São Francisco' (da maior dupla de sambas-enredos da história, Silas de Oliveira e Mano Décio), por não concordar com a decisão.
  Foi então que, liderando a turma revoltada do Prazer da Serrinha, Sebastião de Oliveira, que passaria à história como Molequinho, propôs a dissidência e, unindo-se às turmas de outras agremiações da comunidade - a Unidos da Congonha e a Unidos da Tamarineira - criou o glorioso Império Serrano sob o signo da democracia. Sintomaticamente, a reunião de fundação foi na casa da Tia Eulália de Oliveira, negra vinda de Minas (Além Paraíba), de origem rural e que tinha o jongo no coração. Essa casa ainda existe, é um marco na Serrinha. Quem ouve a viola caipira do samba 'Todo menino é um rei' (do imperiano Zé Luiz e do baiano Nelson Rufino), na introdução da gravação do igualmente imperiano Roberto Ribeiro, não está, como se  vê, delirando. A origem do samba do Império vem do mundo rural.
  E no Império está a mais perfeita linhagem do samba-enredo que, se tinha Silas de Oliveira (autor de clássicos dos clássicos: 'Os cinco bailes da história do Rio', 'Aquarela brasileira', 'Heróis da Liberdade', só para falar dos três mais celebrados) e Mano Décio da Viola (o que dizer de 'Tiradentes', o primeiro samba, em 1949, a extrapolar os limites do carnaval e ganhar o mundo?), hoje está vivíssima em Aluízio Machado, vencedor de sete sambas-enredos na escola da Serrinha, entre os quais 'Bumbum paticumbum prugurundum'. (...)
  É no Império, com sua sábia prudência, a cadenciar o samba para que ele evolua com rigor rumo ao futuro. E se no samba-enredo a tradição continua, em uma outra vertente cara ao samba imperiano, a do partido-alto, isso também acontece. Se antes havia Nilton Campolino, falecido em 2001 depois de muito versar em partideiros, como 'Delegado Chico Palha' (feito nos anos 1940, em parceria com Tio Hélio, mas sucesso na voz de Zeca Pagodinho apenas em 2000), hoje tem Arlindo Cruz, um dos representantes imperianos na revolução do Cacique de Ramos e no samba que toca no rádio, frequenta a TV, pode ser comprado em CDs e DVDs de sucesso. Pois é, o Império sempre soube fazer sucesso..."

(BLANC, Aldir; SUKMAN, Hugo & VIANNA, Luiz Fernando. Heranças do samba. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2004)


quinta-feira, 14 de julho de 2011

Jornalista Daniel Brunet conta um pouco sobre SILAS DE OLIVEIRA...

O jovem e talentoso jornalista de "O Globo", Daniel Brunet, nos deu a honra de sua presença através de um texto maravilhoso!!!! Confiram...



Ouvindo Silas
                                                                                                Por Daniel Brunet


Falar de Silas de Oliveira é complicado para quem nasceu dez anos depois de sua morte. Talvez a maioria das pessoas da minha geração tenha "conhecido" Silas ao ouvir "Aquarela brasileira".
"Legal a música. Quem fez?. Silas de Oliveira? Bom saber..."

Foi assim. E o que mais me impressionou nessa descoberta foi a data da composição: 1964!
Pensei: "só um samba muito bom atravessa décadas". A partir daí quebrei uma ilusão que carregava, de que coisa boa era coisa nova, moderna.
Passei a ouvir mais, "Aquarela brasileira" e tantas outras obras do grande mestre do Império Serrano, como a bela "Meu drama", samba que emociona quem vive de roda em roda. E assim fui conhecendo Silas de Oliveira.

No final da década de 60, veja só, Silas foi um dos que criticava a nova forma de fazer samba, com o andamento mais acelerado. Talvez, se vivo estivesse hoje, faria o mesmo comentário que ouvi de Monarco, no último dia 21 de junho, num debate no CCBB, no Rio.

Ao ser perguntado sobre o samba-enredo de hoje em dia, o baluarte foi econômico: "Não é pra mim, não. Mas apoio a rapaziada que tá fazendo".

E ao falar de grandes sambas-enredo, citou, claro, Silas de Olveira, sem poupar elogios. Contou uma história que espero lembrar pra sempre. Um lado de Silas de Oliveira que ainda não tinha ouvido ninguém falar. Bem, Monarco contou:

"Eu adorava ficar ao lado do Silas quando ele estava bêbado. Era impressionante, pois ele gostava de ficar falando, falando. E falava umas palavras que eu nunca tinha ouvido antes, não sabia o que significavam. Mas o Silas sabia, era muito inteligente. Fazia samba como ninguém; era bom de letra e bom de melodia".

A inteligência, conhecimento e sabedoria, Silas derramou em seus sambas. São herança deste mestre, herança que pode ser desfrutada até por quem não leva Oliveira no nome, mas carrega no peito o mesmo amor pelo ritmo que o consagrou. Suas obras resistem às décadas, porque Silas, mesmo sem saber, não fazia apenas música, produzia clássicos. E este espaço virtual que agora surge cumpre um papel muito importante. O de dar às futuras gerações a chance de conhecer as linhas deste que foi o grande escultor de samba-enredo do Rio.

Depois de ouvir os relatos de Monarco deixei o CCBB com a certeza de que, seja sóbrio ou embriagado, é sempre muito bom ouvir Silas de Oliveira

segunda-feira, 4 de julho de 2011

PERDOA, MEU AMOR, VOLTEI.

Hoje, aqui no SAMBA DE SILAS, temos a honra de compartilhar um texto maravilhoso do nosso querido  NEI LOPES que é escritor, compositor, pesquisador das culturas da Diáspora Africana e advogado. Além dos sambas deliciosos e de grande sucesso que fazem a alegria dos nossos ouvidos é defensor e ativo participante do movimento pela igualdade de direitos da raça negra. 
Obrigado, NEI LOPES, pela emocionante história contada!

Vou contar a história como me contaram. Mesmo porque, quando Silas partiu, eu estava apenas iniciando minha carreira profissional de compositor. E minhas relações com o Império, antes disso, se limitavam a colegas de infância e de escola, como o Vevel (Vandervel) e o Daúde; ou a amigos de meus irmãos, como o saudoso Almyr Mendonça, grande baluarte da Ala da Corte, seu irmão Venino (Irajá, rua Samim) e outros.
Não tive jamais o prazer nem de ter visto o legendário Silas. Mas suas histórias eram de domínio público, muitas delas certamente inventadas ou aumentadas, como talvez esta aqui.
Dizem que um dia, o Poeta brigou com Dona Elane, sua companheira de toda a vida, e se pirulitou, foi embora. Ou foi mandado, não sei bem.
Nesse exílio, tomou todas, escreveu todas, chorou todas. Até que semanas ou meses depois, voltou. Mas não pra casa, e sim pro ensaio do Império – talvez naquela casinha velha da antiga Estrada Marechal Rangel (hoje Ministro Edgar Romero) onde a escola, mais dura que um coco, se albergou no final dos anos 50. Talvez.
Em lá chegando, Silas, devidamente calibrado, subiu no palanque e pegou a boca-de-ferro. E mandou um daqueles sambas que pegam na veia, do tipo “perdoa, meu amor, voltei, porque voei mas sem sair do lugar onde deixei meu coração”.
Contam que o silêncio e o respeito dos componentes diante daquela obra-prima, daquele samba genial e comovente, foi total. E, aí, no fim, antes mesmo de ele dizer o protocolar “obrigado, bateria”, uma mulatona sofrida, mas bonita, saía lá do meio do terreiro, correndo e chorando, dava uma gravata no Poeta, sapecava-lhe um beijo na bochecha e arrastava ele pra casa.
Era Dona Elane. Dizem.

Nei Lopes
(ex-integrante da Ala de Compositores e da Velha-Guarda do G.R.E.S. Acadêmicos do Salgueiro)